O zumbido no ouvido é a percepção de um som sem uma fonte sonora externa. É um sintoma que pode se apresentar de diferentes formas e que pode surgir por diversos motivos, sendo a perda auditiva uma das causas mais recorrentes.
O zumbido no ouvido é um dos sintomas mais comuns observados na prática da otorrinolaringologia. Algumas pessoas descrevem um chiado constante, enquanto outras relatam apitos, assobios, estalos, sons semelhantes ao de uma cachoeira, cigarras ou até mesmo uma pulsação sincronizada com os batimentos cardíacos.
Entendo o desejo de muitas pessoas de “acabar com o zumbido”, mas é importante esclarecer algo fundamental: o zumbido não é uma doença, mas sim um sintoma!
Em outras palavras, ele funciona como um sinal de que alguma alteração aconteceu ou está acontecendo no sistema auditivo — ou, em alguns casos, em outras partes do organismo.
Muitas vezes, o sintoma dura apenas alguns minutos ou horas após um show ou exposição a um som intenso. Em outras, pode persistir por meses ou se estabelecer como um sintoma crônico potencialmente capaz de afetar o sono, a concentração, o rendimento profissional, a saúde mental e a qualidade de vida.
Estima-se que cerca de 15% a 20% da população apresente algum grau de zumbido, mas só uma pequena parcela desse grupo o terá como um incômodo importante. A experiência pode variar muito de uma pessoa para outra.
A boa notícia é que hoje temos inúmeros recursos de investigação e tratamento, sendo plenamente possível tratar ou manejar o sintoma de forma bastante eficaz quando a causa é identificada corretamente.
Continue a leitura para saber tudo sobre o zumbido no ouvido!
O que é zumbido no ouvido?
O zumbido no ouvido, também chamado de tinnitus ou acufeno, é a percepção de um som que não tem origem no ambiente. Ou seja, a pessoa escuta um ruído, por exemplo, mas não existe nenhuma fonte sonora externa produzindo esse som.
O sintoma pode ser percebido em apenas um ouvido, nos dois ouvidos ou dar a sensação de que ele vem de “dentro da cabeça”.
Cada paciente descreve o zumbido de uma forma diferente e, de fato, o som pode se apresentar de diversas formas. Os sons mais comuns incluem:
- chiado;
- apito;
- assobio;
- cigarra;
- cachoeira;
- panela de pressão;
- motor ligado;
- cliques;
- estalos;
- pulsação.
A intensidade também varia bastante. Algumas pessoas só percebem o zumbido quando o ambiente está completamente silencioso, enquanto outras convivem com um som intenso durante todo o dia.
Outro aspecto importante é que o volume nem sempre corresponde ao sofrimento causado. Um zumbido considerado “fraco” pode gerar grande impacto emocional, enquanto outro mais intenso pode ser facilmente tolerado por outra pessoa.
Isso acontece porque o cérebro participa ativamente da percepção do zumbido, explicando por que fatores emocionais, ansiedade, estresse e privação de sono frequentemente aumentam a sensação de incômodo.
O zumbido é uma doença?
Não.
Esse é um dos maiores equívocos sobre o assunto.
O zumbido é um sintoma, assim como febre, dor ou tontura.
Ele pode estar relacionado a dezenas de condições diferentes, algumas simples e facilmente tratáveis, enquanto outras que exigem investigação especializada.
Por isso, o tratamento ideal não consiste apenas em “eliminar o barulho”, mas principalmente em descobrir o motivo pelo qual ele surgiu.
Em muitos pacientes, mais de um fator contribui para o aparecimento do sintoma. Por exemplo, uma pessoa pode apresentar perda auditiva leve, ansiedade importante e disfunção da articulação temporomandibular (ATM), sendo todos esses fatores capazes de influenciar o zumbido simultaneamente.
Como o zumbido surge?
Para entender o zumbido, vale conhecer rapidamente como funciona a audição.
Quando um som chega ao ouvido, ele percorre o canal auditivo, faz vibrar o tímpano e é transmitido pelos pequenos ossos da orelha média até alcançar a cóclea, localizada no ouvido interno.
Dentro da cóclea existem milhares de células sensoriais extremamente especializadas, chamadas de células ciliadas. Elas transformam as vibrações sonoras em impulsos elétricos que seguem pelo nervo auditivo até o cérebro.
Quando ocorre alguma alteração nesse sistema — seja por envelhecimento, exposição ao ruído, doenças ou lesões — o cérebro pode passar a interpretar sinais elétricos anormais como se fossem um som real.
Hoje, sabemos também que o tinnitus não depende apenas do ouvido. Alguns estudos revelaram que pessoas com o sintoma têm atividade aumentada em determinadas regiões do cérebro, ampliando a nossa visão sobre diagnósticos e tratamentos.
Principais causas do zumbido no ouvido
Como dito, o zumbido no ouvido pode ter diversas causas. Na prática clínica, entretanto, algumas situações são muito mais frequentes. Veja.
Perda auditiva relacionada à idade (presbiacusia)
A perda auditiva causada pelo envelhecimento é considerada uma das causas mais comuns de zumbido.
Com o passar dos anos, ocorre uma degeneração gradual das células sensoriais da cóclea. Essa redução das informações sonoras recebidas pelo cérebro pode desencadear alterações na atividade dos neurônios auditivos, favorecendo o aparecimento do zumbido.
Muitas vezes, o paciente ainda não percebe claramente que está ouvindo menos, mas já apresenta o sintoma.
Entre os sinais associados estão:
- dificuldade para compreender conversas;
- necessidade de aumentar o volume da televisão;
- dificuldade para entender a fala em ambientes barulhentos.
Exposição a sons intensos
A exposição frequente ao ruído está entre os fatores de risco mais importantes.
Isso inclui:
- shows;
- casas noturnas;
- uso excessivo de fones de ouvido em volume alto;
- máquinas industriais;
- ferramentas elétricas;
- armas de fogo;
- ambientes profissionais com ruído elevado.
Inicialmente, o zumbido pode surgir após a exposição sonora e desaparecer algumas horas ou dias depois.
Entretanto, quando essa exposição se torna repetitiva, podem ocorrer lesões permanentes nas células auditivas, levando ao surgimento do zumbido crônico.
Acúmulo de cera
O excesso de cerúmen pode obstruir parcialmente o canal auditivo e alterar a forma como os sons chegam ao ouvido.
Nessas situações, além do zumbido, o paciente pode apresentar:
- sensação de ouvido tampado;
- diminuição da audição;
- autofonia (ouvir a própria voz muito alta).
Quando essa é a causa, a remoção da cera costuma resolver completamente o problema.
É importante destacar que objetos como cotonetes não devem ser utilizados para tentar retirar a cera, pois frequentemente empurram o material ainda mais para dentro do canal auditivo, agravando o problema. A limpeza do ouvido deve ser feita apenas em consultório e realizada por um médico otorrinolaringologista.
Infecções do ouvido
Infecções podem provocar inflamações e alterações temporárias na condução do som.
Dependendo do tipo de infecção, além do zumbido, podem surgir também:
- dor;
- febre;
- secreção;
- sensação de ouvido cheio;
- diminuição da audição.
Na maioria dos casos, o sintoma melhora após o tratamento adequado da infecção.
Doença de Ménière
A doença de Ménière é uma condição do ouvido interno associada ao aumento da pressão dos líquidos que circulam na cóclea e no labirinto. Embora sua causa exata ainda não seja totalmente compreendida, sabe-se que ela provoca episódios recorrentes de sintomas que podem comprometer significativamente a qualidade de vida.
A doença costuma se manifestar por meio de uma combinação de quatro sinais clássicos:
- crises de vertigem intensa;
- zumbido no ouvido;
- sensação de ouvido cheio ou tapado;
- perda auditiva flutuante, geralmente em apenas um ouvido nas fases iniciais.
O zumbido pode variar bastante ao longo do tempo. Em muitos pacientes, ele aumenta de intensidade pouco antes de uma crise de vertigem e melhora parcialmente após o episódio.
Com a evolução da doença, a perda auditiva pode tornar-se permanente e o zumbido tende a persistir mesmo fora das crises.
Embora não exista cura definitiva, diversos tratamentos ajudam a reduzir a frequência e a intensidade das crises, além de controlar o impacto do zumbido.
Medicamentos ototóxicos
Alguns medicamentos apresentam potencial de provocar lesão nas estruturas do ouvido interno ou alterar temporariamente o funcionamento do sistema auditivo. Esses medicamentos são chamados de ototóxicos.
Nem toda pessoa que utiliza esses medicamentos desenvolverá zumbido. O risco depende de fatores como:
- dose utilizada;
- tempo de tratamento;
- idade;
- função renal;
- predisposição individual;
- uso simultâneo de outros medicamentos.
Entre os medicamentos mais conhecidos por esse efeito estão:
- alguns antibióticos: especialmente os da classe dos aminoglicosídeos, utilizados principalmente em infecções graves;
- certos quimioterápicos: medicamentos como a cisplatina podem provocar perda auditiva e zumbido, motivo pelo qual pacientes em tratamento oncológico costumam ser acompanhados também por um otorrinolaringologista;
- diuréticos específicos: alguns diuréticos utilizados em ambiente hospitalar, principalmente em doses elevadas, também podem apresentar potencial ototóxico;
- altas doses de salicilatos: o ácido acetilsalicílico (AAS), quando utilizado em doses muito altas, pode causar zumbido temporário (felizmente, esse efeito costuma desaparecer após a suspensão ou ajuste da medicação).
É importante destacar que nenhuma medicação deve ser interrompida por conta própria. Sempre converse com o médico responsável antes de realizar qualquer alteração no tratamento.
Alterações cardiovasculares
Em alguns pacientes, problemas relacionados à circulação sanguínea podem contribuir para o aparecimento do zumbido.
Entre as condições que podem estar associadas estão:
- hipertensão arterial;
- aterosclerose;
- alterações vasculares próximas ao ouvido;
- malformações dos vasos sanguíneos (mais raras).
Quando o zumbido acompanha o ritmo das batidas do coração, recebe o nome de zumbido pulsátil, um tipo específico que merece investigação cuidadosa.
Nem todo zumbido pulsátil representa uma doença grave, mas sua presença geralmente exige avaliação médica para identificar a origem.
Disfunção da articulação temporomandibular (ATM)
A articulação temporomandibular conecta a mandíbula ao crânio e participa de movimentos como falar, mastigar e bocejar.
Alterações nessa articulação ou na musculatura da face podem contribuir para o aparecimento do zumbido em algumas pessoas.
Nesses casos, o paciente pode apresentar também:
- dor na mandíbula;
- estalos ao abrir a boca;
- dificuldade para mastigar;
- tensão muscular facial;
- bruxismo (ranger dos dentes).
Um detalhe interessante é que alguns pacientes conseguem modificar a intensidade do zumbido ao abrir a boca, apertar os dentes ou movimentar o pescoço. Esse achado pode indicar participação da ATM ou da musculatura cervical no sintoma.
O tratamento costuma envolver uma abordagem multidisciplinar, podendo incluir dentista, fisioterapeuta e, em alguns casos, fonoaudiólogo.
Ansiedade, estresse e alterações emocionais
Embora ansiedade e estresse nem sempre sejam a causa inicial do zumbido, eles frequentemente aumentam sua percepção.
Quando uma pessoa está sob intenso estresse ou ansiedade, o sistema nervoso torna-se mais vigilante. Como consequência, o cérebro passa a “amplificar” a percepção do zumbido, fazendo com que ele pareça mais intenso ou mais difícil de ignorar.
Esse mecanismo ajuda a explicar um ciclo bastante comum:
- surge o zumbido;
- o paciente fica preocupado;
- aumenta a ansiedade;
- o cérebro passa a prestar ainda mais atenção ao som;
- o zumbido parece aumentar.
Por isso, o tratamento do zumbido nem sempre se limita ao ouvido. Em muitos pacientes, controlar fatores emocionais faz parte da estratégia terapêutica e pode reduzir significativamente o incômodo.
Quais são os fatores de risco para desenvolver zumbido?
Algumas características aumentam a probabilidade de uma pessoa apresentar tinnitus ao longo da vida.
Entre os principais fatores de risco estão:
- envelhecimento;
- exposição frequente a ruídos intensos;
- histórico familiar de alterações auditivas;
- uso de medicamentos ototóxicos.
- tabagismo;
- consumo excessivo de álcool;
- doenças cardiovasculares;
- diabetes;
- hipertensão arterial;
- obesidade;
- ansiedade;
- estresse crônico;
- distúrbios do sono;
A presença de um ou mais fatores de risco não significa que a pessoa necessariamente desenvolverá zumbido, mas aumenta essa possibilidade.
O zumbido pode ocorrer em apenas um ouvido?
Sim, e a presença do sintoma em apenas um ouvido exige uma investigação mais criteriosa.
Isso acontece porque, em situações menos frequentes, o zumbido unilateral pode estar associado a doenças específicas do nervo auditivo ou do ouvido interno.
Por esse motivo, o médico poderá solicitar exames complementares, especialmente quando o zumbido vier acompanhado de perda auditiva assimétrica, tontura ou outros sintomas neurológicos.
Quando o zumbido é preocupante?
Na maioria das vezes, o zumbido não representa uma emergência médica.
Entretanto, alguns sinais indicam a necessidade de procurar atendimento o quanto antes. Fique de olho se o zumbido:
- surgiu de forma súbita e intensa;
- apareceu junto com perda auditiva repentina;
- veio acompanhado de vertigem intensa;
- ocorre sincronizado com os batimentos cardíacos (zumbido pulsátil);
- afeta apenas um ouvido e persiste;
- surgiu após um traumatismo na cabeça;
- está acompanhado de alterações neurológicas, como fraqueza, dificuldade para falar ou alterações visuais;
- interfere significativamente no sono, no trabalho ou na saúde mental.
A investigação precoce aumenta as chances de identificar causas tratáveis e iniciar a abordagem mais adequada.
Como é feito o diagnóstico do zumbido no ouvido?
O diagnóstico do zumbido começa com uma avaliação clínica detalhada.
Como o tinnitus é um sintoma e não uma doença, o principal objetivo da consulta é identificar sua causa e verificar se existe alguma condição que necessite de tratamento específico.
Para isso, o médico especialista reúne informações sobre o histórico do paciente, realiza o exame físico e, quando necessário, solicita exames complementares.
Na maioria dos casos, uma boa conversa durante a consulta já fornece pistas importantes sobre a origem do problema.
A entrevista clínica, a etapa mais importante
Durante a consulta, o médico costuma fazer perguntas bastante específicas, como:
- Quando o zumbido começou?
- Ele surgiu de forma súbita ou gradual?
- O sintoma é contínuo ou aparece em determinados momentos?
- Acontece em um ou nos dois ouvidos?
- O som é um chiado, apito, pulsação ou outro ruído?
- Existe perda auditiva associada?
- Há episódios de tontura?
- O paciente trabalha em ambiente com muito ruído?
- Faz uso frequente de fones de ouvido?
- Utiliza algum medicamento continuamente?
- O zumbido interfere no sono ou na concentração?
- Há histórico de ansiedade, bruxismo ou disfunção da ATM?
Essas informações ajudam a direcionar toda a investigação.
Exame físico
Após a entrevista, o médico realiza o exame físico.
A avaliação costuma incluir:
- inspeção do ouvido externo;
- otoscopia (visualização do canal auditivo e do tímpano);
- avaliação do nariz e da garganta;
- palpação da articulação temporomandibular;
- exame neurológico quando indicado.
Muitas vezes, causas simples, como um tampão de cerúmen ou uma infecção do ouvido, já podem ser identificadas nessa etapa.
Quais exames podem ser solicitados?
Nem todo paciente precisa realizar vários exames. A escolha depende da história clínica e das características do zumbido.
A seguir, alguns testes que costumam ser solicitados.
Audiometria tonal
A audiometria tonal é um dos exames mais importantes na investigação do zumbido.
Seu objetivo é medir a capacidade auditiva em diferentes frequências sonoras.
Durante o exame, o paciente utiliza fones de ouvido e informa sempre que percebe um som.
O resultado permite identificar:
- perda auditiva;
- grau da perda;
- tipo da perda (condutiva, neurossensorial ou mista);
- diferenças entre os dois ouvidos.
É comum que pessoas que acreditam ouvir normalmente apresentem pequenas perdas auditivas detectadas apenas pela audiometria.
Audiometria vocal
Esse exame complementa a audiometria tonal.
Em vez de sons isolados, o paciente escuta palavras e deve repeti-las.
O objetivo é avaliar a compreensão da fala.
Esse teste ajuda a entender como a perda auditiva interfere na comunicação diária.
Imitanciometria
Também conhecida como avaliação da orelha média, a imitanciometria verifica o funcionamento:
- do tímpano;
- dos ossículos da audição;
- da tuba auditiva;
- dos reflexos acústicos.
É um exame rápido, indolor e bastante útil para identificar alterações da orelha média.
Emissões otoacústicas (EOA)
Esse exame avalia o funcionamento das células ciliadas externas da cóclea.
É especialmente útil para detectar alterações muito precoces da orelha interna , mesmo nos pacientes com audiometria convencional normal.
Potenciais evocados auditivos (PEATE/BERA)
Quando existe suspeita de alterações no nervo auditivo ou nas vias auditivas centrais, o médico pode solicitar o PEATE (também chamado de BERA).
O exame registra a atividade elétrica do sistema auditivo após estímulos sonoros.
Ele pode auxiliar na investigação de doenças neurológicas e tumores do nervo auditivo.
Exames de imagem
Nem todos os pacientes precisam realizar exames de imagem.
Eles costumam ser indicados quando existem sinais de alerta, como:
- zumbido em apenas um ouvido;
- perda auditiva assimétrica;
- zumbido pulsátil;
- alterações neurológicas;
- suspeita de tumores ou alterações vasculares.
Os exames mais utilizados são:
Ressonância magnética
É o principal exame para investigar alterações do nervo auditivo e do cérebro.
Pode ajudar no diagnóstico de condições como o schwannoma vestibular (também conhecido como neurinoma do acústico), um tumor benigno e raro que pode causar zumbido unilateral e perda auditiva progressiva.
Tomografia computadorizada
É mais utilizada quando há suspeita de alterações ósseas, doenças da orelha média ou algumas malformações específicas.
Angiotomografia e angiorressonância
Podem ser indicadas em pacientes com zumbido pulsátil para avaliar vasos sanguíneos da cabeça e do pescoço.
Exames laboratoriais
Em algumas situações, o médico pode solicitar exames de sangue para investigar doenças que possam contribuir para o zumbido.
Dependendo do caso, podem ser avaliados:
- glicemia;
- hemograma;
- função da tireoide;
- vitamina B12;
- ferro;
- ferritina;
- função renal;
- perfil lipídico.
Esses exames não diagnosticam o zumbido diretamente, mas ajudam a identificar fatores que podem estar relacionados ao sintoma.
Zumbido objetivo e subjetivo
Agora esclareço uma dúvida sobre dois tipos de zumbido, o subjetivo e o objetivo.
O que é o zumbido subjetivo?
Cerca de 95% dos casos correspondem ao chamado zumbido subjetivo.
Nesse tipo, somente o paciente percebe o som.
Ele costuma estar relacionado a alterações do ouvido interno, do nervo auditivo ou do processamento cerebral da audição.
É a forma mais comum encontrada na prática clínica.
O que é o zumbido objetivo?
O zumbido objetivo é muito raro.
Nesse caso, existe realmente um som produzido pelo organismo, que em algumas situações pode até ser percebido pelo médico durante o exame.
As principais causas incluem:
- alterações vasculares;
- espasmos musculares do ouvido médio;
- movimentos involuntários de músculos da garganta.
Como há uma fonte física produzindo o som, o tratamento costuma ser direcionado à causa específica.
O zumbido tem cura?
Essa é uma das perguntas mais frequentes feitas pelos pacientes.
A resposta depende da causa.
Quando o zumbido é provocado por condições reversíveis, ele pode desaparecer completamente após o tratamento.
Alguns exemplos incluem:
- tampão de cerúmen;
- infecções do ouvido;
- uso de determinados medicamentos;
- problemas musculares;
- algumas alterações metabólicas.
Por outro lado, quando está relacionado a lesões permanentes das células auditivas ou ao envelhecimento, nem sempre é possível eliminar totalmente o sintoma.
Isso não significa, porém, que nada possa ser feito.
Hoje existem diversas estratégias capazes de reduzir significativamente a percepção do zumbido e melhorar a qualidade de vida.
Em muitos pacientes, o objetivo do tratamento deixa de ser “fazer o som desaparecer” e passa a ser fazer com que ele deixe de incomodar.
Esse conceito é conhecido como “habituação”, um processo em que o cérebro aprende gradualmente a ignorar o estímulo sonoro, da mesma forma que deixa de reagir constantemente ao barulho de um ventilador ou de um ar-condicionado, por exemplo.
Como tratar o zumbido no ouvido?
O tratamento do zumbido deve ser individualizado. Como esse sintoma pode ter diversas causas, não existe uma única abordagem que funcione para todos os pacientes.
O primeiro passo é identificar e tratar, sempre que possível, a condição que está provocando ou contribuindo para o zumbido.
Quando isso não é possível, o objetivo passa a ser reduzir a intensidade do sintoma e, principalmente, diminuir o impacto que ele causa na vida do paciente.
Atualmente, existem diversas opções terapêuticas com diferentes níveis de evidência científica. Em muitos casos, a combinação de estratégias oferece os melhores resultados.
Tratar a causa é a primeira etapa
Sempre que uma causa tratável é identificada, ela deve ser abordada.
Alguns exemplos incluem:
- remoção de excesso de cerúmen;
- tratamento de infecções do ouvido;
- controle da doença de Ménière;
- ajuste de medicamentos quando indicado pelo médico;
- tratamento da disfunção da ATM;
- controle da hipertensão arterial;
- correção de alterações metabólicas.
Em muitos pacientes, apenas essa etapa já é suficiente para reduzir ou eliminar o zumbido.
Aparelhos auditivos
Quando o zumbido está associado à perda auditiva, os aparelhos auditivos representam uma das opções de tratamento.
Isso acontece porque, ao corrigir a audição, muitos pacientes relatam diminuição importante do zumbido. É um benefício adicional.
Além disso, recuperar a audição melhora a comunicação, reduz o esforço para compreender conversas e pode diminuir o isolamento social.
Vale destacar que nem todo paciente com zumbido precisa utilizar aparelhos auditivos. A indicação depende da avaliação clínica e dos exames auditivos.
Terapia sonora (Sound Therapy)
A terapia sonora consiste na utilização de sons suaves para diminuir a percepção do zumbido.
O objetivo não é “mascarar” completamente o sintoma, mas oferecer ao cérebro um estímulo sonoro agradável que facilite o processo de habituação.
Podem ser utilizados:
- ruído branco (som da chuva ou ventilador, por exemplo);
- ruído rosa (chuva intensa ou cachoeira, por exemplo);
- música ambiente.
Em algumas situações, a terapia sonora pode ser realizada por meio de aparelhos auditivos com geradores de som integrados.
Também existem aplicativos e dispositivos específicos desenvolvidos para esse propósito.
Evitar silêncio absoluto
Muitos pacientes percebem que o zumbido parece mais intenso durante a noite.
Isso acontece porque o ambiente silencioso faz com que o cérebro direcione mais atenção ao som interno.
Nesses casos, sons ambientes suaves podem tornar o sintoma menos perceptível e facilitar o sono.
É importante, porém, que o volume seja confortável. Sons muito altos podem produzir o efeito contrário.
Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC)
Entre as abordagens com maior respaldo científico para pacientes com zumbido crônico está a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC).
É importante esclarecer que a TCC não elimina o som do zumbido. Seu objetivo é reduzir o sofrimento causado por ele.
Muitos pacientes entram em um ciclo de preocupação constante e a TCC ajuda a interrompê-lo, modificando padrões de pensamento e desenvolvendo estratégias para reduzir o impacto emocional do sintoma.
Diversos estudos demonstram melhora significativa na qualidade de vida, no sono e na capacidade de lidar com o zumbido após esse tipo de terapia.
Controle da ansiedade e do estresse
Ansiedade, estresse crônico e privação do sono frequentemente aumentam a percepção do zumbido. Por isso, cuidar da saúde mental faz parte do tratamento.
Dependendo da situação, podem ser recomendadas medidas como:
- psicoterapia;
- técnicas de relaxamento;
- higiene do sono;
- atividade física regular;
- tratamento de transtornos de ansiedade ou depressão, quando presentes.
É importante compreender que isso não significa que “o zumbido está na cabeça” ou seja imaginário.
O som é real para quem o percebe. O que acontece é que fatores emocionais influenciam a forma como o cérebro processa esse estímulo.
Medicamentos
Uma dúvida bastante comum é se existe algum remédio específico para acabar com o zumbido.
Até o momento, não há um medicamento capaz de eliminar o zumbido em todos os pacientes.
Dependendo da causa, o médico pode prescrever medicamentos para tratar condições associadas, como:
- controle da doença de Ménière;
- infecções;
- processos inflamatórios;
- ansiedade;
- depressão;
- distúrbios do sono.
Quando essas condições são controladas, o zumbido também pode melhorar.
Suplementos alimentares funcionam?
Diversos suplementos são comercializados com a promessa de reduzir o zumbido.
Entre os mais conhecidos estão:
- ginkgo biloba;
- zinco;
- magnésio;
- vitaminas do complexo B;
- melatonina.
Embora alguns estudos tenham sugerido possíveis benefícios em grupos específicos de pacientes, as evidências científicas ainda são limitadas e inconsistentes.
Por esse motivo, as principais diretrizes internacionais não recomendam o uso rotineiro desses suplementos exclusivamente para tratar o zumbido.
Quando existe deficiência comprovada de alguma vitamina ou mineral, sua reposição pode ser indicada, mas isso não significa que o suplemento funcionará para todos os casos de tinnitus.
Neuromodulação: uma área promissora
Nos últimos anos, a neuromodulação tornou-se uma das áreas mais pesquisadas no tratamento do zumbido.
O objetivo é modificar a atividade dos circuitos cerebrais envolvidos na percepção do tinnitus.
Existem diferentes técnicas em estudo, incluindo:
- estimulação magnética transcraniana;
- estimulação elétrica transcraniana;
- estimulação bimodal (combinação de estímulos sonoros e elétricos).
Algumas dessas abordagens já demonstraram resultados promissores em pacientes selecionados, mas ainda não substituem os tratamentos convencionais e nem são indicadas para todos os casos.
O dispositivo Lenire®
Uma das tecnologias que mais despertaram interesse recentemente é o Lenire®, um dispositivo de neuromodulação bimodal.
Ele combina:
- estímulos sonoros personalizados, apresentados por fones de ouvido;
- estimulação elétrica suave aplicada na língua.
A proposta é estimular simultaneamente diferentes vias nervosas para favorecer mudanças na atividade cerebral relacionada ao zumbido.
Os estudos publicados até o momento mostram resultados animadores em parte dos pacientes, principalmente na redução do incômodo causado pelo sintoma.
No entanto, é importante destacar que:
- o tratamento não elimina o zumbido em todos os casos;
- a indicação deve ser individualizada;
- ainda são necessários estudos adicionais para definir quais pacientes apresentam maior chance de benefício.
Embora o tratamento seja aprovado pela FDA, a autoridade nacional de saúde dos Estados Unidos, o Lenire® ainda não é aprovado, nem está disponível no Brasil.
Mudanças no estilo de vida podem ajudar?
Embora não substituam o tratamento médico, hábitos saudáveis podem contribuir para reduzir a intensidade do zumbido em algumas pessoas.
As recomendações incluem:
- proteger a audição em ambientes ruidosos;
- evitar exposição prolongada a sons intensos;
- controlar doenças crônicas, como hipertensão e diabetes;
- praticar atividade física regularmente;
- manter boa qualidade do sono;
- reduzir o estresse;
- evitar o tabagismo.
Em relação à alimentação, não existe uma dieta específica capaz de curar o zumbido.
Entretanto, alguns pacientes percebem piora dos sintomas após o consumo excessivo de cafeína, álcool ou alimentos muito ricos em sódio. Nesses casos, vale a pena discutir essas observações com o médico antes de fazer restrições importantes na dieta.
Perguntas frequentes sobre zumbido no ouvido
Antes de finalizar, algumas respostas rápidas para dúvidas frequentes sobre zumbido.
1. O zumbido pode desaparecer sozinho?
Sim. Em algumas situações, principalmente após exposição temporária a sons intensos ou infecções leves, o zumbido desaparece espontaneamente.
Entretanto, quando persiste por dias ou semanas, é importante procurar avaliação médica.
2. O uso de fones de ouvido causa zumbido?
O problema não é o fone em si, mas o volume elevado e o tempo prolongado de exposição.
Ouvir música em intensidade alta por longos períodos aumenta o risco de lesão das células auditivas.
Uma recomendação prática é seguir a chamada regra 60/60: utilizar até 60% do volume máximo por, no máximo, 60 minutos seguidos, fazendo pausas entre os períodos de uso.
3. Crianças podem ter zumbido?
Sim.
Embora seja mais comum em adultos, crianças também podem apresentar zumbido.
Nelas, o sintoma pode estar relacionado a:
- infecções;
- perda auditiva;
- excesso de cerúmen;
- exposição ao ruído;
- outras doenças do ouvido.
Como as crianças nem sempre conseguem descrever o que sentem, pais e responsáveis devem estar atentos a queixas de “barulhos no ouvido” ou mudanças no comportamento.
4. Estresse e ansiedade podem causar zumbido?
Normalmente, eles não são a causa de origem, mas frequentemente aumentam a percepção e o incômodo causado pelo zumbido.
5. Todo zumbido significa perda auditiva?
Não. Esperamos que a maioria dos pacientes apresente algum nível de perda auditiva, mas algumas pessoas apresentam audição normal nos exames e ainda assim têm zumbido.
Alterações muito discretas na audição já são capazes de desencadear um quadro de zumbido, além disso, o sintoma pode ter outras causas.
6. Existe cura para o zumbido?
Depende da causa. Quando a origem é tratável, o zumbido pode melhorar ou desaparecer. Nos casos crônicos, existem estratégias que ajudam a reduzir o incômodo e melhorar a qualidade de vida.
7. O zumbido pode piorar com o tempo?
Pode, principalmente se a causa não for identificada e tratada ou se houver exposição contínua a fatores como ruído intenso ou medicamentos ototóxicos.
8. Café causa zumbido?
Nem sempre. Embora algumas pessoas percebam piora após consumir cafeína, a restrição do café não beneficia todos os pacientes.
9. Dormir mal influencia o zumbido?
Sim. A privação de sono pode aumentar a percepção do zumbido, agravar a ansiedade e dificultar a adaptação ao sintoma.
10. Qual médico trata o zumbido no ouvido?
A principal área médica responsável por investigar e tratar problemas auditivos, como o zumbido, é a otorrinolaringologia.
Entretanto, você pode ter uma avaliação mais aprofundada consultando um otoneurologista, que é o otorrino dedicado ao atendimento de pacientes com tontura e zumbido.
Conclusão
O zumbido no ouvido é um sintoma relativamente comum e pode ter diversas causas, desde condições simples e reversíveis até doenças que exigem investigação especializada. Embora nem sempre seja possível eliminar completamente o som percebido, os avanços no diagnóstico e nas opções de tratamento permitem controlar o sintoma de forma cada vez mais eficaz.
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A NP Balance é uma clínica de otoneurologia com equipe clínica inteiramente dedicada ao diagnóstico e tratamento de condições e doenças causadoras de tontura e zumbido. Será um prazer atender você ou sua família!

Médica Otoneurologista com foco em Tontura e Zumbido no Ouvido. Formada em Medicina pela UFRJ, com residência em Otorrinolaringologia pela UERJ e especialização e Mestrado em Otoneurologia pela UNIFESP-EPM. Possui título de especialista em Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial pela ABORL-CCF. Atende em consultórios localizados em Moema, São Paulo, e na região de Alphaville e Tamboré. CRM/SP 203299.



