Exame vHIT (Video Head Impulse Test): O que é, para que serve e como é feito
Se você foi encaminhado para fazer um exame chamado vHIT — ou se está pesquisando sobre ele após uma consulta por tontura ou vertigem —, este artigo vai esclarecer tudo o que você precisa saber: o que o exame avalia, como funciona, como é a experiência para o paciente e o que o resultado pode revelar sobre o seu labirinto.
De forma direta: o vHIT (Video Head Impulse Test, ou Teste de Impulso Cefálico com Vídeo) é um dos exames mais modernos e precisos disponíveis para avaliar o funcionamento do sistema vestibular — a parte do ouvido interno responsável pelo equilíbrio. E, ao contrário de exames mais antigos, ele é rápido, indolor e, na grande maioria dos casos, não provoca tontura.
O que é o vHIT?
O vHIT é um exame que avalia o funcionamento do reflexo vestíbulo-ocular (RVO) — um dos reflexos mais importantes do corpo humano, embora a maioria das pessoas nunca tenha ouvido falar dele.
Funciona assim: toda vez que você vira a cabeça rapidamente para um lado, seus olhos precisam se mover na direção oposta, com a mesma velocidade, para manter o olhar fixo em um ponto. É isso que permite que você leia uma placa enquanto caminha, acompanhe uma conversa enquanto movimenta a cabeça ou simplesmente enxergue com nitidez durante qualquer atividade em que a cabeça se mova. Esse ajuste automático e instantâneo é o RVO.
O RVO é comandado pelo labirinto — mais especificamente, pelos canais semicirculares, que são três pequenas estruturas em forma de arco localizadas em cada ouvido interno. Cada canal detecta rotações da cabeça em um plano diferente do espaço: horizontal, vertical anterior e vertical posterior. No total, temos seis canais semicirculares (três em cada lado), e cada um deles pode ser avaliado individualmente pelo vHIT.
Quando um canal semicircular está funcionando normalmente, o RVO é rápido e preciso — os olhos acompanham perfeitamente o movimento da cabeça. Quando há disfunção, os olhos “atrasam” em relação ao movimento da cabeça e, para compensar, realizam pequenos movimentos de correção chamados sacadas. É justamente a presença e o padrão dessas sacadas que o vHIT detecta e registra.
Para que serve o vHIT?
O vHIT é indicado para avaliar o funcionamento dos canais semicirculares em pacientes com queixa de tontura, vertigem ou desequilíbrio. Ele é especialmente útil nas seguintes situações:
Diagnóstico diferencial de vertigem aguda
Uma das aplicações mais valiosas do vHIT é em uma vertigem súbita. Quando um paciente chega com vertigem intensa, a grande pergunta é: isso é periférico (labirinto) ou central (cérebro)? A diferença é crucial — uma vertigem periférica, como a neurite vestibular, é benigna e autolimitada; uma vertigem central pode ser sinal de AVC de fossa posterior, uma emergência neurológica.
O vHIT ajuda a responder essa pergunta de forma rápida e objetiva. Na neurite vestibular, o vHIT mostra alteração clara (sacadas corretivas) no lado afetado. No AVC, o vHIT costuma estar normal — o que, paradoxalmente, é um sinal de alerta (um labirinto que deveria estar comprometido mas aparece “normal” no vHIT levanta a suspeita de causa central).
Avaliação de doenças vestibulares
O vHIT é ferramenta diagnóstica essencial para condições como:
- Neurite vestibular: mostra comprometimento do canal horizontal (e, em muitos casos, do canal anterior) no lado afetado
- Perda vestibular bilateral: mostra comprometimento dos canais de ambos os lados — condição que causa instabilidade crônica e dificuldade visual durante caminhadas (oscilopsia)
- Schwannoma vestibular (neurinoma do acústico): pode revelar disfunção do canais no lado do tumor
- Ototoxicidade vestibular: monitoramento de função vestibular em pacientes usando medicamentos que podem lesar o labirinto (como aminoglicosídeos e quimioterápicos)
Acompanhamento e evolução
Por ser rápido e não causar desconforto significativo, o vHIT pode ser repetido ao longo do tempo para acompanhar a evolução de uma doença vestibular ou a resposta a um tratamento — como a reabilitação vestibular, por exemplo.
Como o vHIT é feito? O passo a passo do exame
Se você está ansioso por não saber o que esperar, pode relaxar. O vHIT é um dos exames vestibulares mais tranquilos que existem.
Preparação: o exame não exige jejum nem preparo especial. A única orientação importante é não usar lentes de contato no dia do exame e nem maquiagem nos olhos, pois elas podem interferir no rastreamento ocular feito pela câmera. Óculos de grau devem ser retirados durante o procedimento.
Equipamento: o aparelho consiste em óculos leves equipados com uma câmera infravermelha de alta velocidade e um sensor de movimento (acelerômetro). A câmera registra os movimentos dos olhos enquanto o sensor registra os movimentos da cabeça.
Procedimento:
- Você se senta em uma cadeira, a cerca de um metro de distância de um ponto fixo na parede (geralmente um adesivo ou marca)
- O examinador coloca os óculos do vHIT no seu rosto e ajusta para que a câmera capture adequadamente a pupila
- Você é orientado a manter o olhar fixo no ponto na parede durante todo o exame
- O examinador posiciona as mãos na sua cabeça e realiza pequenos movimentos rápidos e inesperados — impulsos cefálicos — em diferentes direções (horizontal, diagonal para cima e diagonal para baixo)
- São realizados cerca de 10 impulsos para cada direção, alternando os lados
- O computador registra simultaneamente o movimento da cabeça e o movimento dos olhos, gerando gráficos que mostram a relação entre os dois
Duração: o exame completo (avaliando os seis canais semicirculares) leva entre 20 a 30 minutos. Se apenas os canais horizontais forem testados, pode levar menos de 5 minutos.
Desconforto: os impulsos cefálicos são de pequena amplitude e alta velocidade — movimentos breves e controlados. A grande maioria dos pacientes não sente tontura durante ou após o exame. Alguns pacientes com quadros vestibulares agudos podem sentir um leve desconforto, mas significativamente menor do que o causado pela prova calórica (exame tradicional que injeta água ou ar nos ouvidos).
vHIT vs. prova calórica: qual a diferença?
Até o surgimento do vHIT, o exame de referência para avaliar a função do labirinto era a prova calórica — parte do exame otoneurológico clássico (realizado com vectoeletronistagmografia ou videonistagmografia). Na prova calórica, água ou ar quente e frio são introduzidos no canal auditivo para estimular o labirinto e gerar uma resposta reflexa nos olhos.
A prova calórica é um exame importante e com décadas de utilização clínica. Porém, tem limitações relevantes:
- Causa tontura e náuseas: muitos pacientes relatam desconforto significativo e, em alguns casos, recusam-se a repetir o exame
- Avalia apenas o canal horizontal: não testa os canais verticais (superior e posterior), que representam quatro dos seis canais semicirculares
- Duração longa: o exame completo pode levar de 30 a 60 minutos
- Estímulo de baixa frequência: a prova calórica avalia a resposta do labirinto a estímulos lentos, que não correspondem aos movimentos naturais da cabeça no dia a dia
O vHIT superou várias dessas limitações:
- Geralmente não causa tontura
- Avalia os seis canais semicirculares individualmente
- É rápido (20 a 30 minutos)
- Estímulo de alta frequência: simula movimentos naturais da cabeça, avaliando o labirinto em condições mais próximas do mundo real
- Pode ser realizado durante crises agudas de vertigem, quando a prova calórica seria inviável
Contudo, os dois exames não são redundantes — eles avaliam aspectos complementares da função vestibular. A prova calórica testa frequências baixas do RVO; o vHIT testa frequências altas. Em determinadas condições, um exame pode estar alterado e o outro normal. Por isso, em muitos casos, o otoneurologista pode solicitar ambos.
Como interpretar o resultado do vHIT
O resultado do vHIT é apresentado em gráficos que mostram a relação entre o movimento da cabeça e o movimento dos olhos. Dois parâmetros principais são analisados:
Ganho do RVO
O ganho é a relação entre a velocidade do movimento dos olhos e a velocidade do movimento da cabeça. O valor normal é próximo de 1,0 — ou seja, os olhos se movem na mesma velocidade que a cabeça, em sentido oposto. Valores abaixo de 0,8 geralmente indicam disfunção do canal testado. Quanto mais baixo o ganho, maior o comprometimento.
Sacadas corretivas
Quando o RVO é deficiente, os olhos não acompanham adequadamente o movimento da cabeça e “escorregam” do alvo visual. Para corrigir isso, o sistema nervoso gera movimentos rápidos dos olhos chamados sacadas.
A combinação de ganho reduzido com presença de sacadas corretivas em um determinado canal confirma disfunção vestibular naquele canal.
É importante ressaltar: a interpretação do vHIT deve ser feita pelo médico que solicitou o exame (otorrinolaringologista ou otoneurologista), em conjunto com a história clínica e outros exames. O vHIT sozinho não fecha diagnóstico — ele fornece informação objetiva sobre a função dos canais semicirculares, que será integrada ao raciocínio clínico.
Em quais doenças o vHIT ajuda no diagnóstico?
O vHIT tem papel relevante na investigação de diversas condições:
- Neurite vestibular: o vHIT mostra ganho reduzido e sacadas corretivas nos canais do lado afetado. É o exame mais útil para confirmar o diagnóstico na fase aguda
- Labirintite: padrão semelhante à neurite, mas com perda auditiva associada (detectada na audiometria).
- Perda vestibular bilateral: ganho reduzido bilateralmente. Fundamental para diagnóstico e acompanhamento (ex: ototoxicidade por aminoglicosídeos)
- Schwannoma vestibular: pode revelar disfunção no lado do tumor, contribuindo para a suspeita diagnóstica
- Diferenciação periférico vs. central: na emergência, um vHIT normal em paciente com vertigem aguda intensa e nistagmo é sinal de alerta para causa central (AVC)
Quem pode fazer o vHIT? contraindicações
O vHIT pode ser realizado em pessoas de todas as idades, incluindo crianças (a partir de aproximadamente 3-4 anos, quando já conseguem colaborar fixando o olhar) e idosos. Pode ser feito inclusive durante crises agudas de vertigem — uma vantagem significativa sobre outros exames vestibulares.
As contraindicações são poucas e relativas:
- Lesões cervicais graves ou instabilidade da coluna cervical (pois o exame envolve impulsos na cabeça)
- Cirurgias cervicais recentes
- Limitações que impeçam o paciente de manter o olhar fixo em um ponto
- Em algumas mulheres que utilizam maquiagem definitiva nos olhos
Na dúvida, o médico solicitante avaliará se o exame é seguro para o seu caso.
Perguntas frequentes sobre o vHIT
O vHIT causa tontura?
Na grande maioria dos casos, não. Os impulsos cefálicos são breves e de pequena amplitude. Ao contrário da prova calórica — que frequentemente provoca vertigem —o vHIT é bem tolerado pela maioria dos pacientes. Pessoas em crise aguda de vertigem podem sentir algum desconforto, mas significativamente menor do que com outros exames vestibulares.
O vHIT substitui a prova calórica?
Não, os dois exames avaliam faixas de frequência diferentes do reflexo vestíbulo-ocular e fornecem informações complementares. O vHIT testa respostas de alta frequência e avalia os seis canais semicirculares; a prova calórica testa respostas de baixa frequência e avalia apenas o canal horizontal. Em muitos casos, o otoneurologista pode solicitar ambos para uma avaliação mais completa.
Preciso de preparo para fazer o vHIT?
O preparo é mínimo. Não é necessário jejum. A principal orientação é não usar lentes de contato no dia do exame e maquiagem nos olhos, pois elas podem interferir no rastreamento da câmera infravermelha. Óculos de grau serão retirados durante o procedimento. Informe ao examinador se tiver alguma restrição cervical.
Quanto tempo dura o exame vHIT?
O exame completo, avaliando os seis canais semicirculares, leva entre 20 a 30 minutos. Se apenas os canais horizontais forem testados, o procedimento pode levar menos de 5 minutos.
Criança pode fazer o vHIT?
Sim, o vHIT pode ser realizado em crianças a partir de aproximadamente 3 a 4 anos de idade, desde que consigam colaborar mantendo o olhar fixo em um ponto durante o exame. É uma vantagem importante em relação a outros exames vestibulares, que são mais difíceis de realizar na população pediátrica.
O que significa um vHIT normal em quem tem vertigem?
Um vHIT normal indica que os canais semicirculares estão funcionando adequadamente nas frequências altas. Isso pode significar que a causa da vertigem não está nos canais (como na VPPB, que afeta os otólitos, ou na enxaqueca vestibular, que é de origem central), ou que houve compensação vestibular suficiente. Em contexto de vertigem aguda intensa com nistagmo, um vHIT normal pode ser sinal de alerta para causa central.
Resumo
O vHIT é um exame moderno, rápido, confortável e altamente preciso para avaliar o funcionamento do labirinto. Ele mede o Reflexo vestíbulo-ocular de cada um dos seis canais semicirculares, permitindo identificar qual parte do sistema vestibular está comprometida — informação essencial para o diagnóstico correto de condições como neurite vestibular e perda vestibular bilateral.
Se o seu médico solicitou um vHIT, pode ficar tranquilo: é um exame simples, que na maioria dos casos não causa tontura, dura poucos minutos e fornece informações valiosas para direcionar o seu tratamento. O mais importante é que a interpretação dos resultados seja feita por um especialista médico otoneurologista que integre os achados do exame à sua história clínica como um todo.

Médica Otoneurologista com foco em Tontura e Zumbido no Ouvido. Formada em Medicina pela UFRJ, com residência em Otorrinolaringologia pela UERJ e especialização e Mestrado em Otoneurologia pela UNIFESP-EPM. Possui título de especialista em Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial pela ABORL-CCF. Atende em consultórios localizados em Moema, São Paulo, e na região de Alphaville e Tamboré. CRM/SP 203299.



